Contexto: desafio de processo seletivo — 5 dias de prazo
Papel: Product Designer (ponta a ponta: pesquisa, ideação, UI, style guide) Ferramentas: Figma
Escopo entregue: redesign de Home e Menu (hamburger)
Sobre a Velocity
A Velocity é um estúdio de ciclismo indoor especializado em spinning, com mais de 10 anos de mercado e operação em modelo de franquia. Em vez de assinatura fixa, o modelo é por créditos: o aluno compra créditos e os converte em aulas, no ritmo que quiser.
Esse modelo não é acidental — é uma tendência consolidada no mercado de boutique fitness. Redes como a ClassPass populares por trabalhar com o mesmo formato de crédito flexível: seus fundadores costumam justificar isso pela ociosidade estrutural das academias tradicionais, que giram bem abaixo da capacidade máxima na maior parte do tempo. O modelo de crédito resolve dos dois lados — dá liberdade para quem treina e melhora o aproveitamento de vaga para quem opera o estúdio. E o boutique fitness em geral retém melhor que a academia tradicional: estúdios desse formato costumam reter aluno em uma taxa sensivelmente mais alta do que academias convencionais, muito puxado pela comunidade e pela experiência em sala. O ciclismo indoor, especificamente, é uma das modalidades que mais recuperou força nos últimos anos dentro desse universo.
Ou seja: a Velocity está competindo em um mercado que só cresce e que depende fortemente de experiência — e isso vale tanto para a sala de aula quanto para o app.
O desafio
Sou aluna da Velocity há mais de um ano, com mais de 160 aulas realizadas. A experiência em sala transformou minha rotina — mas o app não refletia essa qualidade. Interface pouco atrativa, falhas de usabilidade e uma comunicação que não conversava com a energia da marca. Essa distância entre o que a Velocity entrega presencialmente e o que o app entregava digitalmente foi o gatilho para esse redesign.
E essa distância importa mais do que parece à primeira vista: apps de fitness em geral têm um problema sério de retenção — a maioria perde a maior parte dos usuários já nos primeiros dias de uso, e um app com fricção reforça esse abandono em vez de combatê-lo. Sendo o ponto de contato diário entre o aluno e o estúdio (antes da aula para reservar, depois para acompanhar resultado), o app tem tanto peso na experiência quanto a bike.
5W + 1H
Who | Usuários da Velocity — alunos atuais e novos leads |
What | Redesign da interface, focado em agendamento de aulas e acompanhamento de progresso |
Where | Dispositivo móvel, principalmente antes e depois dos treinos |
When | Uso diário — antes da aula para reservar, depois para conferir resultados |
Why | Facilitar o agendamento e motivar uma rotina de treino organizada |
How | Interface renovada, navegação aprimorada e novas funcionalidades |
Por que Home e Menu (e não o app inteiro)
Com 5 dias de prazo, priorizar era parte do exercício — e a escolha em si já diz algo sobre como penso estratégia de produto sob restrição.
A Home é a porta de entrada da experiência: concentra o que o aluno mais acessa no dia a dia — próximas aulas, créditos, conquistas. O menu hamburger, por sua vez, é onde vive tudo que não cabe (nem deveria caber) na tela principal — e organizá-lo bem é o que permite a Home ficar enxuta sem esconder funcionalidade. Resolver essas duas telas gera o maior ganho percebido de usabilidade e de identidade de marca no menor tempo possível — exatamente o tipo de aposta que um prazo curto exige.
Diagnóstico: o que estava quebrado
Antes de desenhar qualquer solução, mapeei os problemas concretos das telas atuais de Home e do menu.
Entre os principais: ações do header sem hierarquia clara, falhas de acessibilidade, um card de "próximas aulas" onde não fica claro que ele é clicável, um CTA de "cancelar" que empurra o aluno para a saída em vez de para a ação de remarcar, o recurso "minhas aulas salvas" com bug (salvar uma aula salvava todas as aulas parecidas), um card de "meus favoritos" mal configurado visualmente, um recurso de gamificação (a "VeloJornada") escondido sem destaque, e uma navbar sem ícones e com textos longos, prejudicando a leitura rápida.

As opções apareciam listadas de forma linear, sem organização por categoria — informações pessoais misturadas com "bring a friend" e dicas da marca. Não havia ícones, o que exige mais esforço cognitivo do usuário para escanear a lista. E a categoria "detalhes da conta" concentrava quase todas as ações, virando um cesto genérico em vez de uma navegação de fato hierarquizada.

Esse diagnóstico foi o que orientou cada decisão da etapa seguinte — nada no redesign final foi estético por conta própria, cada mudança respondeu a um problema listado aqui.
Ideação
A partir do diagnóstico, parti para um "rabiscoframe" — um esboço rápido em baixa fidelidade para testar novas soluções de layout e fluxo antes de ir para a UI final. As definições que saíram dessa etapa:
Nova NavBar — reorganização com 4 funcionalidades principais e ícones, para reconhecimento mais rápido.
Imagem inspiracional no header — reforçando o tom motivacional da marca logo na entrada do app.
UX writing revisado — comunicação mais clara, motivacional e alinhada ao tom da Velocity.
Remoção de blocos sem valor agregado — enxugando a Home para o que realmente importa no dia a dia do aluno.
"VeloJornada" para a NavBar — tirando esse recurso de gamificação do fim da tela (onde ninguém rolava até ele) e dando a ele um lugar fixo e visível.
O novo app Velocity
O redesign final foi guiado por três pilares: usabilidade, conexão emocional e simplicidade.
O header ganhou uma imagem de branding motivacional, a navegação para "alterar aula" substituiu o CTA de "cancelar", e créditos, próxima aula e favoritos passaram a ter blocos claros e componentizados — sem o bug de "aulas salvas" e sem cards mal configurados.
Essa imagem funciona bem logo depois da anterior, porque mostra lado a lado exatamente qual decisão resolveu qual problema do diagnóstico: a nova navbar flutuante, a componentização em blocos, o CTA de destaque para reservar a próxima aula, e o bloco de "nos ajude a melhorar" com copy mais convidativa para o CSat.

O menu deixou de ser uma lista linear e passou a ter três categorias claras — compras, performance e a velocity — cada uma com ícone, o que reduz a leitura necessária para encontrar uma função. A escolha de um fundo escuro com destaques em amarelo reforça a identidade da marca e ainda funciona bem em ambientes de pouca luz, como o próprio estúdio.

Usabilidade aprimorada
A navegação ficou mais intuitiva com a nova NavBar e a reorganização das informações, facilitando o acesso às funcionalidades mais usadas.
Conexão emocional
Elementos motivacionais — texto personalizado, imagem inspiracional — foram pensados para engajar emocionalmente o usuário, refletindo a energia da aula e o foco no progresso pessoal.
Foco na simplicidade
Removi blocos que não agregavam valor, concentrando o essencial e reduzindo interações desnecessárias.
Style guide
Optei por manter as cores centrais da marca (amarelo e preto), mas construí uma paleta de neutros e uma escala de amarelo para dar mais respiro ao layout sem perder identidade. A tipografia usada foi a SF Pro — fonte nativa do iOS, com boa legibilidade — mantendo o padrão de caixa baixa que já existia no app. Os ícones vêm da família Phosphor Icons, escolhida pela consistência de traço e pela leitura clara em tamanhos pequenos.

Feedback
Não conduzi uma metodologia formal e exaustiva de testes de usabilidade — o prazo de 5 dias não permitiria isso com rigor. Mas a prova social também tem valor: ao compartilhar a nova Home com um colega que também é aluno da Velocity, a resposta foi imediatamente positiva — a ponto de ele achar, à primeira vista, que o app real tinha sido atualizado. É um sinal pequeno, mas real, de que a direção fazia sentido para quem vive a marca todos os dias.

Aprendizados
Esse case reforça algo que considero central no meu processo: mesmo sob prazo curto, um diagnóstico bem feito vale mais do que ideias soltas. Cada decisão do redesign — da navbar ao style guide — respondeu a um problema específico levantado na análise inicial, não a uma preferência estética isolada. E ser aluna do produto que eu estava redesenhando foi uma vantagem real: eu não precisei imaginar a dor do usuário, eu já vivia ela.



